terça-feira, 20 de julho de 2010

Para Linda

Oi, Linda, obrigada por trocar uns dedos de prosa conosco, agradeço sua visita e sua preocupação e, por tudo isso, hoje, mais do que pro Astor, minha fala vai pra você. Em primeiro lugar, me desculpe a demora em escrever, pode parecer estranho, mas a culpa não foi minha. Eu estava com as palavras nas pontas dos dedos, mas essa história de pertencer a uma autora é de lascar. Fico aqui cheia de vontade de fazer novos amigos e tenho que esperar pra interagir com o mundo enquanto a tal se desocupa dos oitocentos editais em que inscreve suas mil e novecentas ideias geniais. Como se eu não conhecesse o tipo. Pois bem, só eu, que nasci (e, portanto, dependo) dela é que sei. Agora, cá pra nós, não tem tempo pra se dedicar ao monólogos, mas vai conferir o blog pessoal dela pra você ver o que é bom pra tosse! De dois em dois dias tem alguma coisa nova. Tudo bem que a maioria é poema, desses que a gente tem que ler várias vezes em voz alta depois de beber quatro caipirinhas pra entender, sabe assim? Mas não vamos ficar aqui falando mal da autora senão vai parecer aquela peça do Pirandello que os personagens ficam vagando procurando um autor, uma coisa de louco. Aliás, quem nessa vida é (ou foi) personagem, não deve nem cogitar assistir essa peça, a não ser que leve um ansiolítico pra dar uma descomprimida básica porque senão o bicho pode pegar e porta anti-pânico, além de não ter em todo lugar, não tira o pânico de ninguém, vamos combinar. Mas, mudando de assunto, vou te falar uma coisa que ainda nem contei pra Astor, portanto, você será a primeira a saber: esses dias, em que a tal esteve ocupadíssima, eu aproveitei o benefício da onipresença que têm os personagens e fui pra Salvador. Menina, que loucura. Pras mulheres que passaram dos trinta aquilo lá é o Éden. É um tal de 'minha branca' pra cá, 'pega na minha mandioca' pra lá, que a pessoa fica toda trabalhada na acrobacia, num nível de emoção que jamais caberia em palavras. Aliás, palavra é uma palavra estranha, né? Olha, depois a gente conversa melhor, infelizmente vou ficando por aqui, que a talzinha precisa usar o computador agora, sabe assim? (um saco!)
Beijomeligaoumechamanoskype.
PS: a propósito, eu e Astor somos do tempo em que amigos não procriavam em cativeiro.

sábado, 10 de julho de 2010

Que tempo é esse?

Acho que os ônibus podem ser considerados espaços pra trânsitos extremos da coletividade e também curiosos lugares pra observar a vida em juízo ou como anda o juízo das pessoas ou simplesmente foder seu juízo com a má educação reinante ou, ou... bem, eu não posso deixar de compartilhar o que me aconteceu ontem voltando pra casa na hora do rush, bairro sem luz, engarrafamento caótico, Centro da Cidade. Olha... que tempo é esse o nosso, hein? (pausa contemplativa estúpida).

Eu sempre tive uma grande atração pela “história das mentalidades”- por causa de uma grande professora na faculdade. Ela praticamente eriçava os pêlos toda vez que dizia isso: “história das mentalidades”. A gente nunca imagina que tem um cara no mundo que de repente começa a estudar as mentalidades. E aí os historiadores dizem cheios de languidez: “história das mentalidades” (pausa contemplativa rascante).

A questão é que de lá pra cá, a partir da professora, meus pêlos também ficam eriçados quando ouço ou leio: “história das mentalidades”. Quase como achar uma chave mestra, uma moeda de ouro antiga, uma caixa de metal da bisavó, enfim. É isso. A verdade é que eu sempre fui interessado no que as pessoas tem dentro da cabeça. Mas uma só pessoa não me interessa tanto. Só num bar, a pessoa alterada. Mas não me entenda mal, não quero com isso dizer que adoro pessoas alcoolizadas o tempo inteiro, pelo contrário. A não ser que eu também esteja bem alcoolizado, porque o cara que não está bêbado ter que suportar quem está... é quase... é realmente insuportável. Mas os bêbados são dóceis. Essa é a verdade. Quando não são é porque o álcool não deixa. (pausa contemplativa pretérita).

Mas voltando à história das mentalidades. O que um período de longa duração pode revelar me deixa bastante curioso. Como não sei muita coisa sobre esse assunto, fico tentando catar, colher, pescar o que alguns grupos de pessoas, quando juntos, podem deixar transparecer. E os ônibus são incríveis. Quando não são incríveis – porque você pode não concordar – é porque o teu juízo tá fodido. (pausa contemplativa estúpida). Convenhamos que a real é que os ônibus podem foder teu juízo. Geralmente por um curto período. Se ao descer do ônibus teu juízo continuar fodido, pode crer, você já faz parte de uma mentalidade que eu não sei qual é. (pausa simplesmente) Será que meu juízo ainda está fodido? (Pausa). Prefiro pensar que só estou mentalmente impressionado com o nosso tempo. Ok.

O ônibus que eu estava não vinha cheio. Encheu quando parou no engarrafamento. Comecei a me perguntar por que as pessoas entravam em um veículo que não andava. Não obtive resposta. As pessoas continuavam a entrar. Entravam e se socavam. Eu que sempre ouvi minha mãezinha dizer que eu quando criança não era gordo, mas era “socado”. (pausa contemplativa sem respiração).

Cinco minutos de trânsito parado. Um senhor entra com seis bolsas de supermercado. Senhor magro, cansado, parecia doente. Pensei: como ele vai levantar essas seis bolsas pra passar na roleta? Ele levantou. Ele conseguiu. Mas uma das bolsas rasgou. Não foi culpa dele. Não se faz mais sacolas como as da Casa da Banha. Eram de papel, lembra? Você não podia colocar a carne que, num engarrafamento como esses, molhava e rasgava a bolsa. Não é nada disso que eu queria contar. Mas espere. (pausa simplesmente).

Uma mulher ao meu lado. Grande. Larga. Cabelos longos grisalhos. Aparentava ter seus quarenta e cinco anos, mais ou menos. Professora de Educação física – ela me disse. Ela queria reclamar do engarrafamento, do ônibus cheio, do ar que começava a ficar murrinhento dentro do veículo. Mas ela não conseguiu. Ela começou logo a dizer sobre uma suposta energia que estava presente ali, naquele momento. Ela vinha de longe. Estava voltando pra casa depois de estar em alguma celebração religiosa onde se bebe alguma coisa e se vê coisa e. Enfim. Ela não mais parou de falar. Havia uma mulher no andar de cima da casa dela que a atingia na madrugada e que sabia onde ela estava em qualquer cômodo da casa. Depois ela me disse que no ano 200 a.C ela era uma bruxa e que todas aquelas bruxas estavam tentando fazer com que ela voltasse pra elas. Depois ela me disse que estava pra abrir um hotel. Depois me disse que eu era uma pessoa boa. Muito boa. Bem. Não sou lá esse poço de bondade, mas tento que não tirem o melhor de mim. De repente ela começou a ver mortos dentro do ônibus. Pensei: se pros vivos não tem mais espaço, o que os mortos vem fazer aqui? Calei meu silêncio. Faltava ela ver duendes. E não é que os duendes também resolveram entrar no ônibus parado? Os duendes estavam animadíssimos, segundo ela. Faziam muita algazzara. Não gosto de duvidar das pessoas. E nem se trata disso. Mas o papo começou a ficar denso. Ela queria se livrar da mulher do andar de cima da casa dela. Eu estava sentado no canto do banco do ônibus. Sair dali ia me dar muito trabalho. Meu pé estava dormente. Mas logo eu esqueci do meu pé direito dormente quando percebi que na verdade ela não queria a morte da vizinha. Mas a própria. Por um instante eu não sabia mais em que mundo eu estava. Se um coelho branco de olhos vermelhos se atracasse ao vidro do ônibus eu não ia me espantar. Ela retirou a bíblia da sua bolsa. Começou a ler os salmos. Contou-me simultaneamente sobre suas várias visões cotidianas e suas vidas passadas – segundo ela foram muitas. Nenhuma recente. Sempre a.C. Nunca d.C. Depois fez menção de me presentear com um pequeno rosário de contas cristalinas que estava em seu pescoço. Mas acho que ela desistiu, não sei por que. Acho que eu queria aquele rosário. Quando percebi, o ônibus tinha andado. E eu já podia descer. O ônibus andou e eu não havia notado. Isso foi desgastante. O tempo parou ali. Despedi-me dela – não perguntei seu nome, e saí do ônibus. Fiquei de longe olhando. A minha mentalidade estava fodida. Meu juízo também. Que corpulenta foi aquela meia hora de engarrafamento. Quão titânicas eram as pessoas. Mas sem paz. Tive vontade de beber. Não cerveja, mas óleo de rícino. Não sei por que. Aquilo tudo foi muito estranho. Eu queria saber mesmo que tempo é esse. Só. Eu que gosto de saber o que tem dentro das cabeças das pessoas, talvez agora queira observar eclipses, peixes, mastruços. Poeiras. É.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

SSD

Outro dia ouvi um diálogo no ônibus pra lá de curioso, Astor. Eram duas mulheres assim da minha idade, entre trinta e cinco e quarenta anos, elas falavam meio alto e, mesmo se eu não quisesse, acabaria ouvindo a conversa delas. Uma era loira, provavelmente do pentelho preto, porque a sobrancelha denunciava uma carga genética adulterada pela água oxigenada. A outra era negra com um cabelo assim meio Grace Jones, lembra da Grace Jones? Pois bem, a loira do pentelho preto perguntou pra outra se a outra sabia quem ela comeria. Pra começar, achei muito feio elas falarem desse modo, onde já se viu, se referir ao amor dessa forma? Daí, a Grace Jones wanna be ficou curiosa e quis saber quem a amiga comeria e teve que engolir que o mancebo em questão era o irmãozinho dela de vinte e cinco anos, um menino que ainda gosta de playstation. Grace ficou tão aborrecida que chegou a acusar a amiga de pedófila, mas acabou sendo convencida pela outra que o garoto, apesar da pouca idade, já tinha adquirido uma postura de homem e havia inclusive parado de olhar pros peitos dela enquanto conversavam sobre os arcanos maiores e menores do tarô. Disse ainda que o menino pelo menos era uma pessoa da qual tinha referência e a ajudaria a se livrar da SSD que a acometia. Aí fiquei nervosa, porque não fazia ideia do que essa sigla significava e já tinha até perdido meu ponto só pra poder ouvir a história até o fim. Pois bem, papo vai papo vem, num determinado momento, a loira disse que sexo com desconhecidos tinha a vantagem de, mesmo nas vezes em que não era lá essas coisas, pelo menos não carregar consigo a necessidade de uma conversa para destrinchar as causas de uma ejaculação precoce ou de um ressecamento vaginal, essas eventualidades que acontecem quando você não sabe muito bem com quem está lidando. Foi então que entendi que SSD só podia ser a sigla para Síndrome do Sexo com Desconhecidos. Às vezes acho que eu podia ter feito Antropologia ao invés de Pedagogia, tenho esse feeling, sabe, Astor? Essa coisa de entender de um jeito peculiar as pessoas e seus comportamentos em relação ao grupo a que pertencem, acho que sou uma Margareth Mead wanna be, mas, enfim, voltando às duas, elas terminaram chegando num acordo em que uma poderia, sim, fazer sexo com o irmão da outra desde que não enfiasse o dedo em locais de onde o mesmo jamais sairia limpo. Fiquei tão horrorizada com aquilo, quem elas pensam que são pra falar em altos brados num coletivo dessa forma tão vulgar? Será que elas não percebem que têm um nome a zerar? A coisa me abalou de tal forma que, como eu já tava no ponto final e teria mesmo que esperar pelo menos meia hora até o próximo ônibus sair, sentei pra tomar uma batida de gengibre num desses botequins cariocas que imitam botequim paulista imitando botequim carioca, sabe? Foi até legal, tinha me esquecido de como era bom beber sozinha, sem ninguém pra me dizer a hora de pedir a conta ou uma água. Onde já se viu isso, pedir água em botequim? Água eu bebo em casa, que lutei muito pra conseguir minhas coisas e não vou sair por aí gastando feito uma perdulária descontrolada. Nem te contei, mas tô economizando à beça pra congelar meus óvulos e deixar pra depois essa coisa de decidir se quero ou não ser mãe, o que, venhamos e convenhamos, é muito mais importante do que me hidratar num botequim que nem sequer tem personalidade pra ser típico de lugar algum.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Antes de dormir ou nunca mais dormir

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Eu mal havia chegado da casa daqueles meus amigos que moram em Vargem grande, como te falei, e encontrei uma grande amiga de muito tempo na feira aqui da minha rua. Não que eu tenha o costume de ir às feiras livres – apesar que é algo por demais agradável. Mas também não tinha jeito já que abro o portão e dou de cara com aquelas cores-alhures-raízes. E não fui pra comprar nada. Fui comer um pastel e provar as laranjas. Eu sempre fazia isso quando era novinho. E caldo de cana. Essa minha amiga estava puxando seu carrinho abarrotado de verduras, porque ela não come carne e eu a reconheci pelas sandálias. Na verdade pelo pé. Eu conhecia aquele pé – aquele pé lá e pé cá, sabe? Aquela coisa rápida, que você não alcança. Essa minha amiga é assim. Voa no vento. Depois de choros sem velas e laranja ontem e laranja amanhã, ela se apressou. Fui atrás. Ela passou em casa, deixou as coisas todas arrumadas pra sua mãe e se mandou pra Cachoeira de São Félix, Bahia. Fui atrás. A viagem foi rápida. Fomos de avião. Não deu tempo de ela me explicar muita coisa sobre o trabalho que ela vem fazendo em Iguape, no interior de Cachoeira, há algum tempo. Ela queria me explicar, mas eu estava atrasando tudo. Eu não tinha passagem comprada, nem mala arrumada. Só tinha o sonho de conhecer Cachoeira e o Rio Paraguaçu, a Pedra da Baleia e aquela ponte que dividiu segredos algum dia. No avião eu fiquei tenso. Não com a altura. Mas com os gases. Até hoje ninguém me disse o porquê de tantos gases me assolando cada vez que estou em um avião. Mas esquece isso. Enfim. Fiquei mudo. Ela me achou tenso. Ela estava cansada. Eu também. Chegamos a Salvador, passamos em Santo Amaro e fomos pra Iguape. (Não vi Pedra da Baleia, não vi Rio Paraguaçú e nem passei pela ponte). De Cachoeira fomos pra esse lugarejo incrível chamado Iguape. O trabalho que essa minha amiga está fazendo é em uma comunidade quilombola no meio de um mundo – que é o nosso, mas na verdade a gente não é dono nem da nossa esquina, quanto mais. Mas eles, da comunidade, são donos. Pode crer. Conheci a garotada que veio nos receber na estreita estrada de terra batida. Depois conheci a Mãe. Mãe era a líder do lugar. E educava e criava todo mundo. Mãe havia sonhado com uma mulher que chegava à comunidade pra fazer um trabalho com teatro. Ela disse isso no primeiro dia que esteve com minha amiga. Depois tudo foi se deslindando. As fronteiras foram se quebrando – não com minha amiga, que parece que foi fluido o contato, mas sim com as elucubrações, os desejos de expansão daqueles seres que acumulam fortemente, durante a vida, um saber empírico que me arrebata. O trabalho corporal começou embaixo de uma grande árvore e depois eu fiquei sabendo que aquele era o último dia do trabalho e eles fariam a apresentação final da oficina que durou mais de mês. Conversei um pouco com aquelas pessoas e foi tão bom ouvi-los porque... não existia naqueles falares nenhum carrego de nossa formalidade daqui. Só existia saber. Cada palavra dita parecia bem clara, mastigada, com bens caríssimos à vida. Aqueles pés pisavam tão bem naquela terra. Aquele lugarejo estava num meio mundo de um mundo que dava pra ver... não acabava fácil, não. Meu deus, era até bem fácil criar asas e voar naquele céu.

Bem, enfim minha amiga me explicou qual foi o ponto de partida desse trabalho que ela chamou de “Memória: carne Viva”. A inspiração foi o livro “Antes de Nascer o Mundo” do escritor Angolano, de Moçambique, Mia Couto. Dizem que ele não é nem um pouco afeito à rotina de um escritor profissional. Esse Livro do Mia conta a história de um pai – viúvo – que leva seus filhos pra um lugar remoto. O pai avisa aos filhos que o mundo havia acabado e que eles eram os últimos sobreviventes. É bacana que a narrativa é feita sob a ótica de uma criança. Achei incrível a sacada dessa minha amiga grande artista. Aquele lugar, pelo que ela contava, era o próprio livro. Sabe esses lugares praticamente virgens? Sabe terra virgem, boa?, que você joga uma semetinha de nada e cresce um arvoredo? Parecia isso. O trabalho teatral que ela desenvolveu ali com aquelas pessoas e a comunicação travada, explorada e o pensar sobre tudo o que necessitavam, foi extremamente fino. Ela sempre me diz: “preto, esse trabalho é a minha cachaça”.

A tarde passou depressa e cada acontecimento era tão vivo quanto a alegria que só ia aumentando quanto mais a hora da apresentação chegava.

Quando aquelas crianças - e senhoras também com seus quase setenta anos - começaram a peça e a falar os textos, foi comoção profunda.

Um menino aprendeu a andar com perna de pau assim que subiu nelas. Ele era um gigante, diziam.

Os ensaios aconteceram sempre em um terreiro.

Na hora de minha amiga ir embora, foi um chororô impagável. Pra tudo eles cantavam. Sempre que minha amiga chegava, eles cantavam. Cantavam pra o sol que se punha, cantavam pras partidas. Cantavam pra quem não ia, pra quem via. Cantavam pra dor, pras fronteiras. Cantavam pela paz.

Se na ida eu não conseguia falar nada, na volta foi assim mesmo. Mas não falava porque não tinha nada pra falar. Eu estava em paz comigo e com o avião que voava alto.

Eu queria ser o contador de histórias daquela comunidade pra viver com aqueles personagens. Dormir com eles, cantar, dançar. Viver um tempo com eles e ser insone o tempo que fosse preciso. O teatro - a arte - fala mais forte quando é assim. Sem firula. Sem “comer zinco e arrotar semâncio. E sem passar roxura”, como dizia Dona Luíza, lá de Cachoeira.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Savana onírica

Meus sonhos costumam ser meio Salvador Dali: as pessoas têm gavetas, os relógios escorrem e eu nado no ar. Comento isso com meu terapeuta e ele diz que é muito bom sonhar que se está em movimento, indica mobilidade na vida. Eu aceito, né, Astor, tô pagando. Afinal, quem mais ia pensar num troço desse? Quem mais ia aguentar ouvir sobre meus sonhos, sejam os que tenho dormindo, seja os que tenho acordada? Pelo menos pra isso essa droga de capitalismo serve, pra gente pagar pela atenção alheia. Aliás, se eu pudesse, alugava alguém pra ir comigo a casamentos e chás de bebês, só pra não ter que ficar explicando o porquê de não ser casada. Cansei de mentir, sabe? De dizer que não tenho a obrigação de me envolver com quem quer que seja só pra ficar com o anelar esquerdo pesado e de dizer que acho esse negócio de amor uma loteria danada: ótima pra quem ganha, mas frustrante pra quem não logra êxito. Porque, venhamos e convenhamos, a pessoa pode passar uma vida inteira apostando e nunca ter seu número sorteado, não é mesmo? No último casamento que fui, por estar desacompanhada, acabei inventando que tinha problema nas trompas de falópio, porque, hoje em dia, mesmo sem marido, as pessoas insistem em achar que você tem que ser mãe, que é só arrumar um doador e, daí, depois que esse assunto começa, a coisa vai ganhando proporções assustadoras, que vão desde a idéia de que negar a maternidade é contra a natureza da mulher até a cotação das fraldas Pampers e Turma da Mônica. Confesso que depois de tanta baboseira fico com uma vontade danada de pedir à cidadã (que esse tipo de intromissão costuma vir quase sempre de mulheres) pra se meter com a própria vida e me deixar em paz, já que sou do tempo que filho era coisa pra quem tinha um homem com quem dividir a responsabilidade. Mas, por ultimamente andar tão calma e lânguida, só queria mesmo era alugar uma companhia pra essas ocasiões. Uma amiga do pilates inclusive me indicou uma agência, mas sempre fico achando que vai vir alguém falando ou um “pra mim fazer” ou um “posso estar tentando estar chamando um táxi pra gente” e isso acaba com o estoque de colágeno que ainda me resta. Pensando bem, não sei porque fui falar disso, não era o que realmente tinha a intenção de te contar. Liga não, sempre quando estou a uns três dias da menstruação, dou pra ficar assim, mais digressiva que professores de Filosofia depois da terceira taça de vinho tinto. O que queria te dizer é que esse bom humor de hoje é por conta da peça de Teatro que assisti ontem. Sendo bem sincera, só fui porque li no jornal uma crítica super elogiosa daquela senhora que não gosta de quase nada, sabe? Então, ela adorou a peça de uma tal maneira que fiquei curiosa. E não é que ela tinha razão e o espetáculo era realmente pungente? Resumindo, é a história de um casal onde a mulher tem problema de perda de memória recente e o marido, um escritor meio contemporâneo demais, acaba sendo seduzido pela vizinha, uma maquiadora muito da vagabunda que se aproveita da situação de fragilidade da outra. A hora que eu mais gostei foi quando a desmemoriada disse que ela até podia se esquecer dos fatos, mas que, ainda assim, os reconhecia. Bacana, né? Ah, a peça se chama Savana Glacial, que, coincidentemente, é o nome de um dos esmaltes da piranha da maquiadora. Desculpe falar assim da moça, Astor, mas acho que a pessoa seduzir o homem de uma sequelada é tão covarde quanto roubar moeda de cego na porta da igreja, né, não? Como é que a outra ia poder se vingar? Enfim, ontem foi o último dia da temporada lá no Planetário, mas, se você quiser, eles voltam em cartaz agora em julho lá naquele teatro na saída do Metrô da Praça Cardeal Arco Verde, aquele que tem nome de um dramaturgo que apresentava um programa de entrevistas na Tv Globo há muito tempo atrás, sabe? Bem, acho que não vou me lembrar do nome do homem, mas, de todo modo, esse é o único Teatro nessa praça, portanto, não será difícil de achar.
Aliás, guardei o ticket pra te mostrar. Desde menina tenho essa mania de colecionar ingressos: meu acervo tem entrada de Rock’n Rio, de show do Roberto Carlos e de vários jogos do Maraca. Pra você ter uma ideia, até aquelas pulseiras de área vip eu guardo. Tem gente que acha cafona, mas eu nem ligo. Pra mim, cafona é quem ainda se preocupa em combinar a cor do sapato com a da bolsa. Mas o que queria mesmo te dizer é que essa noite, depois dessa peça, pela primeira vez na vida, tive um sonho diferente, meio Polansky, sabe assim? Não sei quanto a você, mas adoro a atmosfera dos filmes dele, uma coisa claustrofóbica, movimento zero, fico sempre tensa. Pois bem, sonhei que tava num barco com um homem (que parecia ser meu marido) e mais um rapaz, que nem naquele filme dele, qual o nome mesmo? Ai, meu Deus, não consigo me lembrar de mais nada. Será que tô ficando com o mesmo problema da moça da peça? Acho que vou ligar pro meu médico e marcar uma consulta. Mas antes vou ao mercado comprar peixe, que dizem que é ótimo pra memória.
Outra hora nos falamos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ora, bolas...

Interessante falarmos de períneo, bolinhas, exercícios, sexshop e afins. Eu estou exatamente agora em uma gravação de um filme pornô. Produção de um casal de amigos que eu nunca imaginei que trabalhassem nesse ramo. Estou aqui há quase dez dias com eles, em um sítio em Vargem Grande. Por isso demorei a te escrever. Aqui tudo acontece. Eu vim fazer uma visita a esses meus amigos e fiquei com uma enorme preguiça de voltar pra casa. Ando muito só. Mas depois eu te conto sobre isso. E quando eles, enfim, tiveram coragem de me dizer que na segunda feira começaria a gravação do filme, eu me animei e quis ficar pra espiar um bocado. Afinal não é todo dia, não é, Jupira, que podemos ver de perto as peripécias de artistas do sexo. Mas você falou dessas bolinhas aí e eu andei conversando com a menina do filme. Uma das atrizes. E ela estava me falando que é expert nessas bolinhas. Ela fez um curso de pompoarismo – confesso que eu não acreditava nisso, mas agora acredito, porque eu vi... vi. E senti. É, não posso me furtar em dizer que o que vocês mulheres tem entre as pernas – creio que não seja só entre as pernas, mas dentro de todo o organismo – é assustador. E não é só porque o órgão sexual de vocês é interno, não. Vocês são umas assassinas (com carinho, obviamente). Desde que aquele rapaz grego se meteu lá no meio das bacantes a gente sabe disso. Mas tudo certo. Mas não era isso que eu ia dizer. Mas já disse. Bom, comecei a trabalhar no filme pornô. Não como ator. Mas fazendo mil e uma coisas. Aprendi muito de iluminação, inclusive. Mas parece que me dei melhor incrementando a história. Pois é. Se bem que é uma perda de tempo incrementar história em filme pornô, porque no fim dá naquilo mesmo. A gente já sabe. Mas esse casal de amigos está fazendo uma refilmagem de “Sexo a cavalo”. Só que sem aquela cena em que as duas mulheres chupam o pau do cavalo, porque o IBAMA hoje é mais ativo que passivo. Apesar que o IBAMA não é lá grandes coisas e tem muitos criadores de animais que estão reclamando do IBAMA. Mas deixemos o Ibama. Ele não vai poder atrapalhar a filmagem. Bom. Arrumei esse trabalho e está sendo bem interessante ficar aqui. Já-já estou voltando. Faltam mais cinco dias. Voltando ao pompoarismo... essa menina disse tudo o que você disse. Me falou sobre os anéis vaginais. Mas é assustador. Você precisava ver (se bem que você deve saber disso melhor que eu). Essa menina segurou o pênis do ator de um jeito que eu pensei que ele fosse ficar sem o amigo dele. E a força de arremesso que essa menina tem? Ela arremessou duas bolinhas com a vagina! Não conseguiu arremessar a terceira porque ela disse não ter muita prática ainda. Ficou tristinha. Vai entender. Perguntei se ela tinha gozado durante as filmagens, ela disse que nenhuma vezinha. Já a outra menina – coadjuvante – parecia de manteiga. Aqui está muito frio. Eita lugar longe esse Vargem Grande. O rapaz da luz mora em Muiabé. O negão do som mora em Pau Grande, terra do Garrincha. Eu... nesse exato momento estou morando embaixo de um pé de Caju carregadinho. Muita vitamina C. Estou escrevendo e chupando caju enquanto o pessoal da cena chupa outra coisa. Bem, deixa eu ir antes que a bateria do notebook acabe. A propósito, você já assistiu “A Faca na Água”?

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Aquele espaço

Fico impressionada como as aulas de ginástica mudaram com o passar dos anos. Me lembro que há um tempo atrás era só chegar, pegar um tapetinho, uns pesos, seguir o instrutor e sofrer por uma hora. Agora com esse negócio de pilates a professora ensina uns exercícios pro períneo, que é aquele espaço (desculpa falar assim) entre a buceta e o cu. Agora vai dizer, isso é coisa nova, nunca tinha visto exercício pra essas bandas. Outro dia mesmo acho que a professora tava de TPM ou o marido com algum problema, só sei que ela começou a falar de umas coisas que comprou no sex shop também pro períneo. Daí aproveitei que ela tava assim mais animada e perguntei onde era o tal comércio. Fui, né? Era uma quinta e quinta à noite não tem nada que preste na TV. O mais legal nessa coisa toda é que são umas bolinhas, sabe? Você vai colocando uma a uma lá pra dentro, como se sua piriquita tivesse com fome e fosse comendo umas balinhas, a imagem é essa. Agora o ideal, o ideal mesmo, é não imaginar muito que dá nervoso, mas minha professora disse que essa coisa de trabalhar o períneo faz a gente gozar mais e melhor, o que me animou, que fazer a gueixa nunca fez mal a ninguém e não é porque se está solteira que tem que dar o jogo por perdido, não é mesmo? O que não entendo no caso é que estudei numa escola boa e não tive um professor de Biologia ou de Educação Física ou de Teatro pra me falar do tal do períneo. Tudo bem, como dizem por aí, nunca é tarde pra começar e a verdade é que tô me divertindo à beça com as tais das bolinhas, só vendo. Na última consulta, perguntei até pra minha ginecologista se tinha algum problema e ela disse que não tinha nenhum e que inclusive esse brinquedinho era bom mesmo. Acho engraçado: por que que ela, que me atende há anos, não falou isso antes? Por isso que não confio em médico, estão sempre escondendo alguma coisa de nós.