domingo, 15 de agosto de 2010

Nanã

Acho que nunca te falei de minha avó materna, né, Astor? Na verdade não a conheci porque quando ela morreu eu tinha só seis meses de vida e nem os esfíncteres controlava, que dirá conhecer alguém na acepção ampla da palavra. Ainda assim, me miro nela, que era uma pessoa feliz, mas feliz de doer, sabe assim? Pra se ter uma ideia, ela, por exemplo, nunca fez uma viagem ao exterior, dessas que a gente ostenta no facebook, na sala de estar e nas vernissages cool. Acho que o mais longe que a bichinha chegou foi Florianópolis e, ainda assim, nem pôde curtir as praias, já que tinha ido lá mais pra ajudar mamãe e naturalmente passou boa parte do tempo cuidando dos meus irmãos mais velhos que, apesar de já estarem grandinhos, ainda precisavam daquela supervisão no quesito dignidade, afinal, o cu é a última parte que aprendemos a limpar direito, não é mesmo? Pois bem, o que meus irmãos contam é que vovó, fosse em Floripa, fosse no Rio, entre uma limpada de bunda e um "não sobe aí menino que você pode cair", estava invariavelmente irradiando alegria. Eu sei que é difícil ouvir uma coisa dessas sem se perguntar lá no fundo se ela não tomava uma biritinha, um antidepressivo ou um veneninho antimonotonia qualquer, mas, pasme, ela era mais careta do que todas essas evangélicas ex-viciadas que aparecem por aí dizendo que encontraram Jesus. Acredito que lá de cima ela reprove o fato deu tomar remédio pros nervos de forma tão sistemática, mas ela foi ela e eu sou eu e, nessa vida, definitivamente, vale o que acontece e não o que acharíamos ótimo que tivesse acontecido. Exatamente por isso não me sai da cabeça o porquê de tão incomensurável alegria. Penso, penso, matuto, faço pastinha de neurônio e não encontro uma explicação plausível. Tudo bem que ela era bem casada e provavelmente bem-comida, mas isso não é o suficiente pra justificar tamanho júbilo. Ou é? Taí uma pergunta que não sei responder, afinal, os casamentos da nossa geração não são a mesma coisa que os daquela época. Hoje em dia, enquanto ainda se está pagando as prestações da festança e da lua-de-mel, o casal tão feliz das fotos e do vídeo já está amigavelmente afastando as escovas de dente, deixando lençóis saudosos e liberando novos solteiros no mercado que, estatisticamente, ou se casam de novo quase que imediatamente, ou ficam um tanto quanto perdidos entre o medo de uma nova relação e o desejo de estar perto de uma pessoa arrebatadoramente interessante que de novo possa trazer aquele cheiro de casa de campo em plena selva de pedra. O fato é que queria muito poder conversar tantas coisas com vovó que nem te conto. Às vezes me pego com uma inveja danada das minhas amigas quando elas começam com "minha avó isso, minha avó aquilo" e eu sem ter o que dizer, pois, pra piorar, meu pai é órfão e, portanto, o que me restou foi conversar com minhas tias-avós, que, apesar de serem muitas, sabem voar. Pela memória delas, sei como foi a infância de vovó, como ela começou a trabalhar escondida do pai dela, como conheceu vovô, como se arrumava em dez minutos, como ria alto, como não ligava quando chovia, como amava dar o primeiro banho em cada criança que nascia na família, como tinha uma pele tão incrível que parecia que nunca iria envelhecer e como fazia um arroz com agrião que até hoje ninguém consegue imitar. O que minhas tias-avós não sabem é que em domingos assim como esse de hoje, meio chuvosos, em que o desejo de ficar embaixo do edredon é mais forte até do que o de comer chocolate, tenho sempre a impressão de que vovó olha por mim mais de perto do que de costume.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sou brasileiro imperador!

Arrumei um emprego em um bar onde o pessoal é animado pacas, Jupira. Eu andava meio durango kid e resolvi ganhar uns trocados. Nesse meio tempo, apareceu a Celeste que cismou que queria casar comigo, mas na verdade ela só queria mesmo é um ombro pra chorar. A gente já conversou sobre isso, não é? Essa mania que esse pessoal do nosso tempo tem de fazer do amor uma terapia, ou fazer do amor um terapeuta. Você me entendeu. Mas isso não interessa muito porque o que eu precisava mesmo era de uns trocados depois que eu voltei de Salvador. Bom, arranjei o trampo nesse bar. Dou uma chegada lá dois dias na semana, rola um samba num dia, rola uma salsa no outro além de muitas surpresas nessa vida de meu deus. E a surpresa da hora foi a seguinte: minha tia passou por lá sem me avisar. E eu nem sabia se ela ainda existia. E isso já faz mais de anos. Achei até que tinha morrido. Mas não. Tá numa sorte que até deus duvida. Fiquei pasmo. Acho que não te falei dessa minha tia, não é? Nós chegamos a morar juntos. Na verdade ela criou o adolescente que eu fui e que eu não me lembro mais... enfim. Eu tava servindo o povo e dançando, como sempre, e tomando umas sem pena, quando me vi nos braços da minha tia descambando o: “quero viver como passarinho / cantar, voar sem direção...” sabe essa? Não via minha tia há tempos. Ela uma vez falou pra mim mais ou menos isso que te falaram de uma oitava acima. E logo depois ela se escafedeu. E olha que a oitava dela nunca foi muito lá embaixo, não. A danada nem envelheceu muito. Só tá usando uns óculos mais fortes e continua bebum. Ela procurava por essa vida as salsas que ela tanto gosta, mas foi parar no bar no dia que rolava o samba. Minha tia dizia que eu só prestava no dia que eu chegava mais cedo em casa e bebia conhaque com ela, que eu era aquele amigo que só tinha dinheiro pra bebidinha, e que se ela precisasse de um remédio eu não me pronunciar. Um coisa essa minha tia. Esse é o jeitão dela. Mas ela me amava, podes crer. Sempre me amou. Mas essa mania de salsa e rumba, cuba libre e um bolero com umas reluzentes lágrimas no fim da noite me enchia, vou te contar. Apesar que eu adoro bolero. Bom, o negócio foi que quando eu abri meus olhos [porque tenho mesmo a mania de dançar de olhos meio fechados], minha tia me olhava com cara de quem via a colheita se deteriorar. ASSSSTOR! Ai, tia, a senhora por aqui? Como me encontrou? Primeiro o cheirinho, me encheu a paciência porque eu tava fumando, depois olhou meus dentes e me mostrou os dela. Depois chorou. Fez um mimimi que só as tias fazem nos nossos ombros e me mostrou, por fim, o senhor de toda a boa sorte dela: um simpático grande homem de vinte e três anos dono de uma ilha lá perto de Angra dos Reis. Ah, Jupira...foi instantânea a alegria. Como foi bom saber de titia. Mas daí acho que apaguei. Desmaiei. Porque acordei com a Celeste esfregando meus pulsos. Recobrei rápido a razão e adivinhei o que minha tia havia feito [sempre ela deu um jeito de esbofetear minhas namoradas], mas não sei se fez desta vez. Celeste, nesse ponto, é um túmulo, daquelas que sofre calada, sabe? Fui lavar o rosto e a cabeça na pia do banheiro. Coloquei a mão no bolso e encontrei um belo cheque de uma grana boa. Fiquei cantando o samba até o dia clarear. Depois fui embora. Agora vou ver se conheço a ilha do namorado de titia. E isso tem que ser rápido, Jupira, porque se mal me lembro, o rapagão, novo como ele só, tá meio... assim, assim... sabe? Não funciona lá muito bem. Você me entende, né? E minha tia [como todas as mulheres da minha família] é quase uma lava vulcânica viva. Jupira, não sei por que, mas tou me sentindo tão brasileiro com esse cheque que ganhei de presente...Será que é decepção com os candidatos presidenciáveis que temos em nossa frente? Ih, grilei!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ex-cêntrica

A falta que esse seu excesso faz em mim é absolutamente igual a quando eu era menina e minha mãe se atrasava pra me buscar na escola e eu ficava à mercê das faxineiras com seus grampos e conversas sobre o preço do patinho e do lagarto. Olhando pra esse seu jeito de ficar perdido, vejo um homem que adoraria ser devorado por bacantes anoréxicas, dessas que ladram mas não mordem, falam mas não dizem, ameaçam mas não se impõem. Pensando bem, acho que também tenho fome. E sede. E apetite. E vontade de sair nua montada numa Harley-Davidson, como uma Lady Godiva from hell, pronta pra sentir o vento bater em locais que não tomam sol. Pensando bem mesmo, não tenho tudo que amo, mas nem por isso caio na asneira de amar tudo que tenho. Deus me livre uma coisa dessas. Imagina só no médico: “-Dona Jupira, a senhora está com falta de lítio”. “-Poxa, doutor, que ótimo!” “-Eu não diria o mesmo, afinal, você terá de tomar remédio pro resto da vida”. “-Não tem problema, estou feliz, o transtorno bipolar é meu e, portanto, digno do meu amor”. Te digo uma coisa, Astor, eu posso ser tudo nessa vida, mas nunca, nunca, serei uma pessoa parada com mil palavras, refém da sintática e da concordância. Imagina, respeito é bom e eu gosto. Comigo, semântica tem que ser subordinada, que nesse mundo de Deus me livre manda quem pode e obedece quem tem juízo. Falando nisso, hoje saí do sério e liguei pra todo mundo com quem briguei nos últimos dois anos. Nem preciso dizer que foram horas no telefone e só não estou totalmente arrependida porque na última ligação ouvi a coisa mais interessante que uma pessoa munida de alguma sanidade pode ouvir, que foi algo mais ou menos assim: “Jupira, só paramos de nos falar porque você sempre esteve uma oitava acima, o que não me permitiu ser concerto pra sua sinfonia”. Fala sério, não é lindo isso? Nem esse pessoal que escreve roteiro pra cinema seria capaz de imaginar uma fala dessas, vai. Fiquei me achando na hora, tô me achando agora e acho que será assim até amanhã de manhã, quando, depois de pedir um descafeinado só pra mim, voltarei à realidade de quem toma remédio pros nervos e não sabe com quantos adjetivos se faz uma pessoa inteira. Nem com quantas vagas lembranças se constrói uma memória.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Réplica para uma liberdade qualquer

Eu estava meio perdido por esse mundão aí. Sabe se perder? Não se perder pra se encontrar. Perder-se mesmo. Até vento bom ventar e te carregar. Uma folha que vira rápida. Uma palavra da doida que te leva pra baixo de um bonde. A sacola da dona que estoura tomates. A mão do guarda que não aponta direito. A asa do condor que se estira parada. Perder assim. Mil agulhas e uma linha. Perder esse. Sabe pessoa com gotas de suor, lágrima, sal do mar na pele, unhas, todas as unhas? Uma pessoa parada com mil palavras, o mundo inteiro de uma pessoa, um campo de batalha de uma pessoa, um ser de uma pessoa, dois seres de uma pessoa, três seres de duas pessoas, amor de cão, rato no muro, tijolo aberto, buraco de fechadura, quarto de casal, de empregada, computador de menino, música toada, sinuca de bico, peixe de pele, escama de pé. Sabe perder-se no domingo? Inferno astral, segundo sol, era de aquário, história de uma mesa, de uma cama, de um copo. Sabe cadeira? Perder-se no sentar, cadeira vazia, borracha queimada, tempo de cheiro. Sabe Cheiro? Perfume quebrado, quarto mofado, poeira de canto, periquito branco, madeira de banco, comida de branco, colher de chá, de sopa, faca de ponta, de gume, de dois. Sabe um Estado? Bahia, Recife, Aracajú, Cajuína, Tindorerê, Tocantins? Sabe fruta doce? Comi uma azeda. Sabe café preto? Nunca vi. Sabe fruta pão? Passo. Esqueci de me vestir, Jupira. Acordei em Setembro. Farinhei tempo. Passeei no arame. Comi salada de veias. Perdi veias, vasos, varizes.

Vi tudo isso que te digo escrito numa placa quando eu ia pra próxima parada.

Eu estava dormindo quando a explosão se deu.

Escrevi tudo isso quando li uma mensagem no meu celular, que dizia assim pra mim: te vi agora.

Eu ia lá e resolvi ficar. Não sei que lugar é esse que estou, mas acho que conheço. Parece uma caixa. Um cinzeiro. Um hotel cinco estrelas. Parece a rua Voltuntários da Pátria. Não sei que lugar é esse. Mas acho que já estive aqui. Mas tudo bem. Eu volto já. Não demoro. A porta está aberta. Tou sem telefone, a bateria acabou e tou sem skype. E não reclamo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Para Linda

Oi, Linda, obrigada por trocar uns dedos de prosa conosco, agradeço sua visita e sua preocupação e, por tudo isso, hoje, mais do que pro Astor, minha fala vai pra você. Em primeiro lugar, me desculpe a demora em escrever, pode parecer estranho, mas a culpa não foi minha. Eu estava com as palavras nas pontas dos dedos, mas essa história de pertencer a uma autora é de lascar. Fico aqui cheia de vontade de fazer novos amigos e tenho que esperar pra interagir com o mundo enquanto a tal se desocupa dos oitocentos editais em que inscreve suas mil e novecentas ideias geniais. Como se eu não conhecesse o tipo. Pois bem, só eu, que nasci (e, portanto, dependo) dela é que sei. Agora, cá pra nós, não tem tempo pra se dedicar ao monólogos, mas vai conferir o blog pessoal dela pra você ver o que é bom pra tosse! De dois em dois dias tem alguma coisa nova. Tudo bem que a maioria é poema, desses que a gente tem que ler várias vezes em voz alta depois de beber quatro caipirinhas pra entender, sabe assim? Mas não vamos ficar aqui falando mal da autora senão vai parecer aquela peça do Pirandello que os personagens ficam vagando procurando um autor, uma coisa de louco. Aliás, quem nessa vida é (ou foi) personagem, não deve nem cogitar assistir essa peça, a não ser que leve um ansiolítico pra dar uma descomprimida básica porque senão o bicho pode pegar e porta anti-pânico, além de não ter em todo lugar, não tira o pânico de ninguém, vamos combinar. Mas, mudando de assunto, vou te falar uma coisa que ainda nem contei pra Astor, portanto, você será a primeira a saber: esses dias, em que a tal esteve ocupadíssima, eu aproveitei o benefício da onipresença que têm os personagens e fui pra Salvador. Menina, que loucura. Pras mulheres que passaram dos trinta aquilo lá é o Éden. É um tal de 'minha branca' pra cá, 'pega na minha mandioca' pra lá, que a pessoa fica toda trabalhada na acrobacia, num nível de emoção que jamais caberia em palavras. Aliás, palavra é uma palavra estranha, né? Olha, depois a gente conversa melhor, infelizmente vou ficando por aqui, que a talzinha precisa usar o computador agora, sabe assim? (um saco!)
Beijomeligaoumechamanoskype.
PS: a propósito, eu e Astor somos do tempo em que amigos não procriavam em cativeiro.

sábado, 10 de julho de 2010

Que tempo é esse?

Acho que os ônibus podem ser considerados espaços pra trânsitos extremos da coletividade e também curiosos lugares pra observar a vida em juízo ou como anda o juízo das pessoas ou simplesmente foder seu juízo com a má educação reinante ou, ou... bem, eu não posso deixar de compartilhar o que me aconteceu ontem voltando pra casa na hora do rush, bairro sem luz, engarrafamento caótico, Centro da Cidade. Olha... que tempo é esse o nosso, hein? (pausa contemplativa estúpida).

Eu sempre tive uma grande atração pela “história das mentalidades”- por causa de uma grande professora na faculdade. Ela praticamente eriçava os pêlos toda vez que dizia isso: “história das mentalidades”. A gente nunca imagina que tem um cara no mundo que de repente começa a estudar as mentalidades. E aí os historiadores dizem cheios de languidez: “história das mentalidades” (pausa contemplativa rascante).

A questão é que de lá pra cá, a partir da professora, meus pêlos também ficam eriçados quando ouço ou leio: “história das mentalidades”. Quase como achar uma chave mestra, uma moeda de ouro antiga, uma caixa de metal da bisavó, enfim. É isso. A verdade é que eu sempre fui interessado no que as pessoas tem dentro da cabeça. Mas uma só pessoa não me interessa tanto. Só num bar, a pessoa alterada. Mas não me entenda mal, não quero com isso dizer que adoro pessoas alcoolizadas o tempo inteiro, pelo contrário. A não ser que eu também esteja bem alcoolizado, porque o cara que não está bêbado ter que suportar quem está... é quase... é realmente insuportável. Mas os bêbados são dóceis. Essa é a verdade. Quando não são é porque o álcool não deixa. (pausa contemplativa pretérita).

Mas voltando à história das mentalidades. O que um período de longa duração pode revelar me deixa bastante curioso. Como não sei muita coisa sobre esse assunto, fico tentando catar, colher, pescar o que alguns grupos de pessoas, quando juntos, podem deixar transparecer. E os ônibus são incríveis. Quando não são incríveis – porque você pode não concordar – é porque o teu juízo tá fodido. (pausa contemplativa estúpida). Convenhamos que a real é que os ônibus podem foder teu juízo. Geralmente por um curto período. Se ao descer do ônibus teu juízo continuar fodido, pode crer, você já faz parte de uma mentalidade que eu não sei qual é. (pausa simplesmente) Será que meu juízo ainda está fodido? (Pausa). Prefiro pensar que só estou mentalmente impressionado com o nosso tempo. Ok.

O ônibus que eu estava não vinha cheio. Encheu quando parou no engarrafamento. Comecei a me perguntar por que as pessoas entravam em um veículo que não andava. Não obtive resposta. As pessoas continuavam a entrar. Entravam e se socavam. Eu que sempre ouvi minha mãezinha dizer que eu quando criança não era gordo, mas era “socado”. (pausa contemplativa sem respiração).

Cinco minutos de trânsito parado. Um senhor entra com seis bolsas de supermercado. Senhor magro, cansado, parecia doente. Pensei: como ele vai levantar essas seis bolsas pra passar na roleta? Ele levantou. Ele conseguiu. Mas uma das bolsas rasgou. Não foi culpa dele. Não se faz mais sacolas como as da Casa da Banha. Eram de papel, lembra? Você não podia colocar a carne que, num engarrafamento como esses, molhava e rasgava a bolsa. Não é nada disso que eu queria contar. Mas espere. (pausa simplesmente).

Uma mulher ao meu lado. Grande. Larga. Cabelos longos grisalhos. Aparentava ter seus quarenta e cinco anos, mais ou menos. Professora de Educação física – ela me disse. Ela queria reclamar do engarrafamento, do ônibus cheio, do ar que começava a ficar murrinhento dentro do veículo. Mas ela não conseguiu. Ela começou logo a dizer sobre uma suposta energia que estava presente ali, naquele momento. Ela vinha de longe. Estava voltando pra casa depois de estar em alguma celebração religiosa onde se bebe alguma coisa e se vê coisa e. Enfim. Ela não mais parou de falar. Havia uma mulher no andar de cima da casa dela que a atingia na madrugada e que sabia onde ela estava em qualquer cômodo da casa. Depois ela me disse que no ano 200 a.C ela era uma bruxa e que todas aquelas bruxas estavam tentando fazer com que ela voltasse pra elas. Depois ela me disse que estava pra abrir um hotel. Depois me disse que eu era uma pessoa boa. Muito boa. Bem. Não sou lá esse poço de bondade, mas tento que não tirem o melhor de mim. De repente ela começou a ver mortos dentro do ônibus. Pensei: se pros vivos não tem mais espaço, o que os mortos vem fazer aqui? Calei meu silêncio. Faltava ela ver duendes. E não é que os duendes também resolveram entrar no ônibus parado? Os duendes estavam animadíssimos, segundo ela. Faziam muita algazzara. Não gosto de duvidar das pessoas. E nem se trata disso. Mas o papo começou a ficar denso. Ela queria se livrar da mulher do andar de cima da casa dela. Eu estava sentado no canto do banco do ônibus. Sair dali ia me dar muito trabalho. Meu pé estava dormente. Mas logo eu esqueci do meu pé direito dormente quando percebi que na verdade ela não queria a morte da vizinha. Mas a própria. Por um instante eu não sabia mais em que mundo eu estava. Se um coelho branco de olhos vermelhos se atracasse ao vidro do ônibus eu não ia me espantar. Ela retirou a bíblia da sua bolsa. Começou a ler os salmos. Contou-me simultaneamente sobre suas várias visões cotidianas e suas vidas passadas – segundo ela foram muitas. Nenhuma recente. Sempre a.C. Nunca d.C. Depois fez menção de me presentear com um pequeno rosário de contas cristalinas que estava em seu pescoço. Mas acho que ela desistiu, não sei por que. Acho que eu queria aquele rosário. Quando percebi, o ônibus tinha andado. E eu já podia descer. O ônibus andou e eu não havia notado. Isso foi desgastante. O tempo parou ali. Despedi-me dela – não perguntei seu nome, e saí do ônibus. Fiquei de longe olhando. A minha mentalidade estava fodida. Meu juízo também. Que corpulenta foi aquela meia hora de engarrafamento. Quão titânicas eram as pessoas. Mas sem paz. Tive vontade de beber. Não cerveja, mas óleo de rícino. Não sei por que. Aquilo tudo foi muito estranho. Eu queria saber mesmo que tempo é esse. Só. Eu que gosto de saber o que tem dentro das cabeças das pessoas, talvez agora queira observar eclipses, peixes, mastruços. Poeiras. É.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

SSD

Outro dia ouvi um diálogo no ônibus pra lá de curioso, Astor. Eram duas mulheres assim da minha idade, entre trinta e cinco e quarenta anos, elas falavam meio alto e, mesmo se eu não quisesse, acabaria ouvindo a conversa delas. Uma era loira, provavelmente do pentelho preto, porque a sobrancelha denunciava uma carga genética adulterada pela água oxigenada. A outra era negra com um cabelo assim meio Grace Jones, lembra da Grace Jones? Pois bem, a loira do pentelho preto perguntou pra outra se a outra sabia quem ela comeria. Pra começar, achei muito feio elas falarem desse modo, onde já se viu, se referir ao amor dessa forma? Daí, a Grace Jones wanna be ficou curiosa e quis saber quem a amiga comeria e teve que engolir que o mancebo em questão era o irmãozinho dela de vinte e cinco anos, um menino que ainda gosta de playstation. Grace ficou tão aborrecida que chegou a acusar a amiga de pedófila, mas acabou sendo convencida pela outra que o garoto, apesar da pouca idade, já tinha adquirido uma postura de homem e havia inclusive parado de olhar pros peitos dela enquanto conversavam sobre os arcanos maiores e menores do tarô. Disse ainda que o menino pelo menos era uma pessoa da qual tinha referência e a ajudaria a se livrar da SSD que a acometia. Aí fiquei nervosa, porque não fazia ideia do que essa sigla significava e já tinha até perdido meu ponto só pra poder ouvir a história até o fim. Pois bem, papo vai papo vem, num determinado momento, a loira disse que sexo com desconhecidos tinha a vantagem de, mesmo nas vezes em que não era lá essas coisas, pelo menos não carregar consigo a necessidade de uma conversa para destrinchar as causas de uma ejaculação precoce ou de um ressecamento vaginal, essas eventualidades que acontecem quando você não sabe muito bem com quem está lidando. Foi então que entendi que SSD só podia ser a sigla para Síndrome do Sexo com Desconhecidos. Às vezes acho que eu podia ter feito Antropologia ao invés de Pedagogia, tenho esse feeling, sabe, Astor? Essa coisa de entender de um jeito peculiar as pessoas e seus comportamentos em relação ao grupo a que pertencem, acho que sou uma Margareth Mead wanna be, mas, enfim, voltando às duas, elas terminaram chegando num acordo em que uma poderia, sim, fazer sexo com o irmão da outra desde que não enfiasse o dedo em locais de onde o mesmo jamais sairia limpo. Fiquei tão horrorizada com aquilo, quem elas pensam que são pra falar em altos brados num coletivo dessa forma tão vulgar? Será que elas não percebem que têm um nome a zerar? A coisa me abalou de tal forma que, como eu já tava no ponto final e teria mesmo que esperar pelo menos meia hora até o próximo ônibus sair, sentei pra tomar uma batida de gengibre num desses botequins cariocas que imitam botequim paulista imitando botequim carioca, sabe? Foi até legal, tinha me esquecido de como era bom beber sozinha, sem ninguém pra me dizer a hora de pedir a conta ou uma água. Onde já se viu isso, pedir água em botequim? Água eu bebo em casa, que lutei muito pra conseguir minhas coisas e não vou sair por aí gastando feito uma perdulária descontrolada. Nem te contei, mas tô economizando à beça pra congelar meus óvulos e deixar pra depois essa coisa de decidir se quero ou não ser mãe, o que, venhamos e convenhamos, é muito mais importante do que me hidratar num botequim que nem sequer tem personalidade pra ser típico de lugar algum.