domingo, 15 de agosto de 2010
Nanã
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Sou brasileiro imperador!

Arrumei um emprego em um bar onde o pessoal é animado pacas, Jupira. Eu andava meio durango kid e resolvi ganhar uns trocados. Nesse meio tempo, apareceu a Celeste que cismou que queria casar comigo, mas na verdade ela só queria mesmo é um ombro pra chorar. A gente já conversou sobre isso, não é? Essa mania que esse pessoal do nosso tempo tem de fazer do amor uma terapia, ou fazer do amor um terapeuta. Você me entendeu. Mas isso não interessa muito porque o que eu precisava mesmo era de uns trocados depois que eu voltei de Salvador. Bom, arranjei o trampo nesse bar. Dou uma chegada lá dois dias na semana, rola um samba num dia, rola uma salsa no outro além de muitas surpresas nessa vida de meu deus. E a surpresa da hora foi a seguinte: minha tia passou por lá sem me avisar. E eu nem sabia se ela ainda existia. E isso já faz mais de anos. Achei até que tinha morrido. Mas não. Tá numa sorte que até deus duvida. Fiquei pasmo. Acho que não te falei dessa minha tia, não é? Nós chegamos a morar juntos. Na verdade ela criou o adolescente que eu fui e que eu não me lembro mais... enfim. Eu tava servindo o povo e dançando, como sempre, e tomando umas sem pena, quando me vi nos braços da minha tia descambando o: “quero viver como passarinho / cantar, voar sem direção...” sabe essa? Não via minha tia há tempos. Ela uma vez falou pra mim mais ou menos isso que te falaram de uma oitava acima. E logo depois ela se escafedeu. E olha que a oitava dela nunca foi muito lá embaixo, não. A danada nem envelheceu muito. Só tá usando uns óculos mais fortes e continua bebum. Ela procurava por essa vida as salsas que ela tanto gosta, mas foi parar no bar no dia que rolava o samba. Minha tia dizia que eu só prestava no dia que eu chegava mais cedo em casa e bebia conhaque com ela, que eu era aquele amigo que só tinha dinheiro pra bebidinha, e que se ela precisasse de um remédio eu não me pronunciar. Um coisa essa minha tia. Esse é o jeitão dela. Mas ela me amava, podes crer. Sempre me amou. Mas essa mania de salsa e rumba, cuba libre e um bolero com umas reluzentes lágrimas no fim da noite me enchia, vou te contar. Apesar que eu adoro bolero. Bom, o negócio foi que quando eu abri meus olhos [porque tenho mesmo a mania de dançar de olhos meio fechados], minha tia me olhava com cara de quem via a colheita se deteriorar. ASSSSTOR! Ai, tia, a senhora por aqui? Como me encontrou? Primeiro o cheirinho, me encheu a paciência porque eu tava fumando, depois olhou meus dentes e me mostrou os dela. Depois chorou. Fez um mimimi que só as tias fazem nos nossos ombros e me mostrou, por fim, o senhor de toda a boa sorte dela: um simpático grande homem de vinte e três anos dono de uma ilha lá perto de Angra dos Reis. Ah, Jupira...foi instantânea a alegria. Como foi bom saber de titia. Mas daí acho que apaguei. Desmaiei. Porque acordei com a Celeste esfregando meus pulsos. Recobrei rápido a razão e adivinhei o que minha tia havia feito [sempre ela deu um jeito de esbofetear minhas namoradas], mas não sei se fez desta vez. Celeste, nesse ponto, é um túmulo, daquelas que sofre calada, sabe? Fui lavar o rosto e a cabeça na pia do banheiro. Coloquei a mão no bolso e encontrei um belo cheque de uma grana boa. Fiquei cantando o samba até o dia clarear. Depois fui embora. Agora vou ver se conheço a ilha do namorado de titia. E isso tem que ser rápido, Jupira, porque se mal me lembro, o rapagão, novo como ele só, tá meio... assim, assim... sabe? Não funciona lá muito bem. Você me entende, né? E minha tia [como todas as mulheres da minha família] é quase uma lava vulcânica viva. Jupira, não sei por que, mas tou me sentindo tão brasileiro com esse cheque que ganhei de presente...Será que é decepção com os candidatos presidenciáveis que temos em nossa frente? Ih, grilei!
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Ex-cêntrica
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Réplica para uma liberdade qualquer

Eu estava meio perdido por esse mundão aí. Sabe se perder? Não se perder pra se encontrar. Perder-se mesmo. Até vento bom ventar e te carregar. Uma folha que vira rápida. Uma palavra da doida que te leva pra baixo de um bonde. A sacola da dona que estoura tomates. A mão do guarda que não aponta direito. A asa do condor que se estira parada. Perder assim. Mil agulhas e uma linha. Perder esse. Sabe pessoa com gotas de suor, lágrima, sal do mar na pele, unhas, todas as unhas? Uma pessoa parada com mil palavras, o mundo inteiro de uma pessoa, um campo de batalha de uma pessoa, um ser de uma pessoa, dois seres de uma pessoa, três seres de duas pessoas, amor de cão, rato no muro, tijolo aberto, buraco de fechadura, quarto de casal, de empregada, computador de menino, música toada, sinuca de bico, peixe de pele, escama de pé. Sabe perder-se no domingo? Inferno astral, segundo sol, era de aquário, história de uma mesa, de uma cama, de um copo. Sabe cadeira? Perder-se no sentar, cadeira vazia, borracha queimada, tempo de cheiro. Sabe Cheiro? Perfume quebrado, quarto mofado, poeira de canto, periquito branco, madeira de banco, comida de branco, colher de chá, de sopa, faca de ponta, de gume, de dois. Sabe um Estado? Bahia, Recife, Aracajú, Cajuína, Tindorerê, Tocantins? Sabe fruta doce? Comi uma azeda. Sabe café preto? Nunca vi. Sabe fruta pão? Passo. Esqueci de me vestir, Jupira. Acordei
Vi tudo isso que te digo escrito numa placa quando eu ia pra próxima parada.
Eu estava dormindo quando a explosão se deu.
Escrevi tudo isso quando li uma mensagem no meu celular, que dizia assim pra mim: te vi agora.
Eu ia lá e resolvi ficar. Não sei que lugar é esse que estou, mas acho que conheço. Parece uma caixa. Um cinzeiro. Um hotel cinco estrelas. Parece a rua Voltuntários da Pátria. Não sei que lugar é esse. Mas acho que já estive aqui. Mas tudo bem. Eu volto já. Não demoro. A porta está aberta. Tou sem telefone, a bateria acabou e tou sem skype. E não reclamo.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Para Linda
sábado, 10 de julho de 2010
Que tempo é esse?

Acho que os ônibus podem ser considerados espaços pra trânsitos extremos da coletividade e também curiosos lugares pra observar a vida em juízo ou como anda o juízo das pessoas ou simplesmente foder seu juízo com a má educação reinante ou, ou... bem, eu não posso deixar de compartilhar o que me aconteceu ontem voltando pra casa na hora do rush, bairro sem luz, engarrafamento caótico, Centro da Cidade. Olha... que tempo é esse o nosso, hein? (pausa contemplativa estúpida).
Eu sempre tive uma grande atração pela “história das mentalidades”- por causa de uma grande professora na faculdade. Ela praticamente eriçava os pêlos toda vez que dizia isso: “história das mentalidades”. A gente nunca imagina que tem um cara no mundo que de repente começa a estudar as mentalidades. E aí os historiadores dizem cheios de languidez: “história das mentalidades” (pausa contemplativa rascante).
A questão é que de lá pra cá, a partir da professora, meus pêlos também ficam eriçados quando ouço ou leio: “história das mentalidades”. Quase como achar uma chave mestra, uma moeda de ouro antiga, uma caixa de metal da bisavó, enfim. É isso. A verdade é que eu sempre fui interessado no que as pessoas tem dentro da cabeça. Mas uma só pessoa não me interessa tanto. Só num bar, a pessoa alterada. Mas não me entenda mal, não quero com isso dizer que adoro pessoas alcoolizadas o tempo inteiro, pelo contrário. A não ser que eu também esteja bem alcoolizado, porque o cara que não está bêbado ter que suportar quem está... é quase... é realmente insuportável. Mas os bêbados são dóceis. Essa é a verdade. Quando não são é porque o álcool não deixa. (pausa contemplativa pretérita).
Mas voltando à história das mentalidades. O que um período de longa duração pode revelar me deixa bastante curioso. Como não sei muita coisa sobre esse assunto, fico tentando catar, colher, pescar o que alguns grupos de pessoas, quando juntos, podem deixar transparecer. E os ônibus são incríveis. Quando não são incríveis – porque você pode não concordar – é porque o teu juízo tá fodido. (pausa contemplativa estúpida). Convenhamos que a real é que os ônibus podem foder teu juízo. Geralmente por um curto período. Se ao descer do ônibus teu juízo continuar fodido, pode crer, você já faz parte de uma mentalidade que eu não sei qual é. (pausa simplesmente) Será que meu juízo ainda está fodido? (Pausa). Prefiro pensar que só estou mentalmente impressionado com o nosso tempo. Ok.
O ônibus que eu estava não vinha cheio. Encheu quando parou no engarrafamento. Comecei a me perguntar por que as pessoas entravam em um veículo que não andava. Não obtive resposta. As pessoas continuavam a entrar. Entravam e se socavam. Eu que sempre ouvi minha mãezinha dizer que eu quando criança não era gordo, mas era “socado”. (pausa contemplativa sem respiração).
Cinco minutos de trânsito parado. Um senhor entra com seis bolsas de supermercado. Senhor magro, cansado, parecia doente. Pensei: como ele vai levantar essas seis bolsas pra passar na roleta? Ele levantou. Ele conseguiu. Mas uma das bolsas rasgou. Não foi culpa dele. Não se faz mais sacolas como as da Casa da Banha. Eram de papel, lembra? Você não podia colocar a carne que, num engarrafamento como esses, molhava e rasgava a bolsa. Não é nada disso que eu queria contar. Mas espere. (pausa simplesmente).
Uma mulher ao meu lado. Grande. Larga. Cabelos longos grisalhos. Aparentava ter seus quarenta e cinco anos, mais ou menos. Professora de Educação física – ela me disse. Ela queria reclamar do engarrafamento, do ônibus cheio, do ar que começava a ficar murrinhento dentro do veículo. Mas ela não conseguiu. Ela começou logo a dizer sobre uma suposta energia que estava presente ali, naquele momento. Ela vinha de longe. Estava voltando pra casa depois de estar em alguma celebração religiosa onde se bebe alguma coisa e se vê coisa e. Enfim. Ela não mais parou de falar. Havia uma mulher no andar de cima da casa dela que a atingia na madrugada e que sabia onde ela estava em qualquer cômodo da casa. Depois ela me disse que no ano
quarta-feira, 7 de julho de 2010
SSD